quarta-feira, 12 de outubro de 2016

no meio das vertigens


Na descida da falésia até ao mar, observo duas pessoas cruzarem-se numa escadaria a pique. Uma desce, a outra sobe. Não se conhecem. No cruzamento trocam uma ou duas palavras, mas sobretudo a postura dos seus corpos e talvez um certo ritmo cardíaco permite uma estranha forma de reconhecimento, involuntário mas atento, e uma certa comunidade, como se há muito se conhecessem. Seguem caminho. Desço as escadas e cruzo-me com a  pessoa que sobe. Pergunto-lhe qualquer coisa objectiva. De olhos fixos na pedra, mas esforçando-se por ser cordial, diz-me que não sabe nada sobre o que eu lhe pergunto, que não pode saber. Só vê a escada, procurando agarrar-se como pode a um terreno extremamente escorregadio. Ainda tenta olhar para mim, mas é tomada por um grande desequilíbrio. Só depois da frustração de não obter a resposta desejada percebo que ela sofre de vertigens. Percebo então que naquele cruzamento que observei entre os dois se deu um encontro no meio das vertigens que ambos sentiam e presumo que, por um momento, tenham sentido um breve conforto naquela escadaria.

traços


andam sempre por aí, pelos corpos, entre os corpos. desde pequena que me fascinam: tiques, ou quase tiques, expressões corporais e faciais, esgares, esses gestos únicos e ao mesmo tempo banais. o gesto de pôr a carteira atrás do bolso das calças, o gesto de apanhar o cabelo. atender o telefone, abrir a porta de casa. posturas, maneirismos. uma certa maneira de fumar, outra de dormir, de esperar na fila do supermercado, de pegar na chávena do café, de agarrar no livro, de o sublinhar, de se limpar com a toalha depois do banho, de subir escadas, de soletrar em voz baixa, de fazer sinal para pedir a conta ao senhor do café, de colocar a mão no volante do carro, de deitar as palavras para fora da boca, de cantarolar. os traços desenhados no rosto pelo choro que vem, por um sorriso. o gesto de se desviar de um assunto, de se despedir. e não falo dos que não se vêem. serão infinitos? são pequeninos, minúsculos, seres liliputianos. mas uma meia dúzia deles, nem tanto, pode ocupar uma vida inteira e, nem que durem pouco mais que um ápice, durarão para sempre. acontecem entre pessoas, mas também entre as pessoas  e as coisas. na verdade há quase sempre coisas entre as pessoas e há sempre momentos em que nos tornamos coisas.
os traços ficam, transformam-se, alguns misturam-se uns aos outros, intensificam-se com essas misturas. outros parecem desaparecer e por vezes reaparecer modificados, estranhos. traços belos e traços terríveis, traços de uma vasta paleta de cores, ou não, serão talvez brancos, diáfanos: traços impessoais.

o terror: o desaparecimento dos traços. o negro absoluto.



quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Nada lhe era mais insuportável do que a repetição do mesmo caminho. Mas, pensando bem, isto acontecia-lhe mais vezes de carro. Talvez tivesse que ver com a velocidade. Quando andava a pé, os caminhos eram sempre diferentes, mesmo quando se repetiam, provavelmente porque os acidentes naturais sobressaiam: uma luz particular ou um risco no céu. Um formigueiro que tinha hoje um desenho diferente. Os encontros. De carro o fantasma do mesmo caminho surgia mais vezes. Andava sempre à aventura, sempre outro, mais outro e outro caminho. Sim, teria a ver com a velocidade. A a percepção do mesmo e do diferente em velocidades e ritmos diferentes varia...

sábado, 17 de setembro de 2016

lançadas em pleno voo, as imagens

A evolução da imagem apenas por convenção pode denominar-se evolução. Da mesma maneira, podemos - esquecendo a possibilidade técnica - imaginar um avião que em pleno voo construa e lance no espaço outra máquina. Esta máquina voadora, ainda que absorta no seu próprio voo, consegue por sua vez construir e lançar no espaço uma terceira. (...) a montagem e o lançamento destas máquinas - tecnicamente impensáveis - que são lançadas em pleno voo não constitui uma função do avião voador acrescentada e lateral, pois supõe um atributo essencial do próprio voo, uma parte do mesmo, e contribui para a sua possibilidade e segurança, tanto quanto o mecanismo da direcção ou do funcionamento do motor. Naturalmente, só a muito custo se pode chamar "evolução" a esta série de projéteis que se constituem em pleno voo e saem projectados uns dos outros conservando a integridade do movimento.

(tradução minha a partir de:
Osip Mandelstam, "Coloquio con Dante", Tradução de Jesús García Gabaldón, Visor Libros, 1996)







quarta-feira, 7 de setembro de 2016

gesto

IC19 37,5 graus. Há bicha e está quente. Abro as janelas. Paro. Arranco. Bebo um pouco de água, decido-me pela música três faixas à frente, volto atrás, não, quero ouvir de novo esta. Faço um movimento qualquer com o braço, não me lembro porquê (talvez não tivesse porquê). Pelo retrovisor, logo depois do meu gesto, vejo que a mulher que conduz o carro atrás do meu e que fazia sinal pisca para mudar de faixa repete o mesmo gesto que eu fiz com o braço. Percebo então que esse gesto que antes não tinha porquê passara a fazer parte de um diálogo e tem agora um significado. Aparentemente, à medida que avanço lentamente, a mulher desiste de mudar de faixa, talvez eu estivesse a demorar demais, talvez aquele gesto a tivesse tranquilizado. Agora seguia-me de mais perto. Como se o facto de estar cinco metros à frente lhe desse paz de espírito. Paramos novamente. Arranco. Aceno com o braço e mudo de faixa. Ainda não sei o que quer dizer aquele gesto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

morrer, cair, desmaiar.


- Porque subiste por aquela encosta tão dura, se te faltavam as forças?
- Fugia.
- De quê?
- De um peso que me puxa para baixo. Tinha de subir, na hora em que o sol é mais terrível, essa hora em que as pedras e a terra chamam por nós. Sentia-me pó, que por todo o lado pairava e colava.
- Mas o teu corpo fraquejava.
- Não, naquela hora não era mulher. Talvez ao amanhecer, nas terras húmidas, o tivesse sido. Mas naquela hora as pedras falaram-me. Sabes, o perigo não é desmaiar, cair, morrer. É antes numa outra ordem que ele reside: morrer, cair, depois, talvez, desmaiar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Os mimos guardam um segredo




Uma vez perguntaram-me qual era o significado desta cena, a cena final do filme Blow-up, de Antonioni. Eu não tive, como é óbvio, resposta, como não terei para pergunta semelhante sobre nenhuma cena de nenhum filme. Achei ainda assim que é uma muito boa cena para falar sobre esta coisa das perguntas sobre os significados das coisas. É muito interessante tentar perceber, antes de qualquer debate semiológico, porque é que se anda sempre à procura da metáfora ou do que significa, do que quer dizer isto e aquilo. O que se terá passado para que se faça sentir na nossa cultura artística esta pulsão para "o que quer dizer" ou então, as avessas disto, "a arte que não quer dizer nada" porque é o contrário da arte que quer dizer qualquer coisa. Talvez fosse interessante, antes de mais nada, ver melhor a pergunta. É um lugar comum. Talvez, muitas vezes, quando se pergunta "o que quer dizer" não se esteja imediatamente a determinar esse dado como uma metáfora ou como um significado preciso. Na sua forma comum esta questão é banal e até pode ser interessante, porque a ambiguidade da linguagem o permite. O problema é quando ela se torna uma questão académica, institucional, onde "o que quer dizer" e o "que não quer dizer nada" assumiram proporções monstruosas. O curioso é que a questão "o que quer dizer" afasta-nos sempre do que se está a dizer, seja uma frase ou uma imagem, do que está a acontecer. Neste caso diz-se por gestos, movimentos de câmara, dos corpos e dos olhares. Os mimos talvez reflictam esse desejo de ver o que não está lá. Talvez. Mas isso não está nas imagens de forma absoluta. Os gestos são o que são. Não querem dizer. Podem ser mais do que são.  Neste caso, nesta cena, cria-se um espaço e um corpo completamente diferente, que envolve uma maneira de ver diferente do ver que estava implicado no olhar deste fotógrafo. E que tem a ver com um gesto ao qual se retirou o significado como centro: a bola. Talvez isto queira dizer qualquer coisa, talvez não. Perguntar "o que quer dizer" é sempre um movimento que se afastou do problema que é dado no real, é sempre uma espécie de ansiedade infantil pela resposta. Mas as crianças não perguntam tanto "o que quer dizer" como nós adultos e não perguntam apenas "o que quer dizer". Elas perguntam "e depois, o que se passou a seguir?", elas respondem, "não, não, não é isso", elas dizem o que está nas imagens em vez de verem o que está n"o que quer dizer".