Well! I've often seen a cat without a grin - thought Alice - but a grin without a cat! It's the most curious thing I ever saw in my life!
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
terça-feira, 18 de outubro de 2016
ἄπνοια
Poesia: é qualquer coisa que pode significar uma mudança na respiração. Quem sabe se a poesia não faz o caminho – também o caminho da arte – com vista a uma tal mudança? talvez ela consiga, já que o estranho, ou seja o abismo e a cabeça de Medusa, o abismo e os autómatos, parecem ir numa e na mesma direcção – talvez ela consiga então aí distinguir entre estranheza e estranheza, talvez a cabeça de Medusa se atrofie precisamente aí, talvez precisamente aí fracassem os autómatos – neste breve e único momento.
(...)
(O poema) mantém viva a memória das suas datas, mas – fala. É claro que fala sempre e apenas em causa própria, a mais própria que se possa imaginar. Mas penso (...) que desde sempre uma das esperanças do poema é precisamente a de, deste modo, falar também em causa alheia – não, esta palavra já a não posso usar agora –, é a de, deste modo, falar em nome de um Outro, quem sabe se em nome de um radicalmente Outro. (...) O poema detém-se ou alimenta esperanças – uma palavra que temos de relacionar com a criatura – quando se encontra com tais pensamentos. Ninguém pode dizer quanto tempo durará ainda esta pausa na respiração – o alimentar esperanças e o pensamento. O reino do que é “veloz”, que sempre foi o do “lá fora”, ganhou mais velocidade. O poema sabe isso, mas mantém a sua rota em direcção àquele “Outro”.
Paul Celan, “O Meridiano”. In: Arte Poética. Edição e tradução de João Barrento. Lisboa, Livros Cotovia, 1996
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
no meio das vertigens
Na
descida da falésia até ao mar, observo duas pessoas cruzarem-se numa escadaria
a pique. Uma desce, a outra sobe. Não se conhecem. No cruzamento trocam uma ou
duas palavras, mas sobretudo a postura dos seus corpos e talvez um certo ritmo
cardíaco permite uma estranha forma de reconhecimento, involuntário mas atento,
e uma certa comunidade, como se há muito se conhecessem. Seguem caminho. Desço
as escadas e cruzo-me com a pessoa que sobe. Pergunto-lhe qualquer coisa
objectiva. De olhos fixos na pedra, mas esforçando-se por ser cordial, diz-me
que não sabe nada sobre o que eu lhe pergunto, que não pode saber. Só vê a
escada, procurando agarrar-se como pode a um terreno extremamente escorregadio.
Ainda tenta olhar para mim, mas é tomada por um grande desequilíbrio. Só depois
da frustração de não obter a resposta desejada percebo que ela sofre de
vertigens. Percebo então que naquele cruzamento que observei entre os dois se
deu um encontro no meio das vertigens que ambos sentiam e presumo que, por um momento,
tenham sentido um breve conforto naquela escadaria.
traços
andam sempre por aí, pelos corpos, entre os corpos. desde
pequena que me fascinam: tiques, ou quase tiques, expressões corporais e faciais, esgares, esses gestos únicos e ao mesmo tempo banais. o gesto de pôr a carteira
atrás do bolso das calças, o gesto de apanhar o cabelo. atender o telefone, abrir a porta de casa. posturas, maneirismos. uma certa maneira de fumar, outra de
dormir, de esperar na fila do supermercado, de pegar na chávena do café, de agarrar no livro, de o sublinhar, de
se limpar com a toalha depois do banho, de subir escadas, de soletrar em voz baixa, de fazer sinal para pedir a conta ao senhor do café, de colocar a mão no volante do
carro, de deitar as palavras para fora da boca, de cantarolar. os traços desenhados no rosto pelo choro que vem, por um sorriso. o gesto de se desviar de um assunto, de se
despedir. e não falo dos que não se vêem. serão infinitos? são pequeninos, minúsculos, seres liliputianos. mas
uma meia dúzia deles, nem tanto, pode ocupar uma vida inteira e, nem que durem pouco
mais que um ápice, durarão para sempre. acontecem entre pessoas, mas também entre as pessoas e as coisas. na verdade há quase sempre coisas entre
as pessoas e há sempre momentos em que nos tornamos coisas.
os traços ficam, transformam-se, alguns misturam-se uns aos outros, intensificam-se com essas misturas. outros parecem desaparecer e por vezes reaparecer modificados, estranhos. traços belos e traços terríveis, traços de uma vasta paleta de cores, ou não, serão talvez brancos, diáfanos: traços impessoais.
os traços ficam, transformam-se, alguns misturam-se uns aos outros, intensificam-se com essas misturas. outros parecem desaparecer e por vezes reaparecer modificados, estranhos. traços belos e traços terríveis, traços de uma vasta paleta de cores, ou não, serão talvez brancos, diáfanos: traços impessoais.
o terror: o desaparecimento dos traços. o negro absoluto.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Nada lhe era mais insuportável do que a repetição do mesmo caminho. Mas, pensando bem, isto acontecia-lhe mais vezes de carro. Talvez tivesse que ver com a velocidade. Quando andava a pé, os caminhos eram sempre diferentes, mesmo quando se repetiam, provavelmente porque os acidentes naturais sobressaiam: uma luz particular ou um risco no céu. Um formigueiro que tinha hoje um desenho diferente. Os encontros. De carro o fantasma do mesmo caminho surgia mais vezes. Andava sempre à aventura, sempre outro, mais outro e outro caminho. Sim, teria a ver com a velocidade. A a percepção do mesmo e do diferente em velocidades e ritmos diferentes varia...
sábado, 17 de setembro de 2016
lançadas em pleno voo, as imagens
A evolução da imagem apenas por convenção pode denominar-se evolução. Da
mesma maneira, podemos - esquecendo a possibilidade técnica - imaginar
um avião que em pleno voo construa e lance no espaço outra máquina.
Esta máquina voadora, ainda que absorta no seu próprio voo, consegue por
sua vez construir e lançar no espaço
uma terceira. (...) a montagem e o lançamento destas máquinas -
tecnicamente impensáveis - que são lançadas em pleno voo não constitui
uma função do avião voador acrescentada e lateral, pois supõe um
atributo essencial do próprio voo, uma parte do mesmo, e contribui para a
sua possibilidade e segurança, tanto quanto o mecanismo da direcção ou do
funcionamento do motor. Naturalmente, só a muito custo se pode chamar
"evolução" a esta série de projéteis que se constituem em pleno voo e
saem projectados uns dos outros conservando a integridade do movimento.
(tradução minha a partir de:
Osip Mandelstam, "Coloquio con Dante", Tradução de Jesús García Gabaldón, Visor Libros, 1996)
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
gesto
IC19 37,5 graus. Há bicha e está quente. Abro as janelas. Paro.
Arranco. Bebo um pouco de água, decido-me pela música três faixas à
frente, volto atrás, não, quero ouvir de novo esta. Faço um movimento
qualquer com o braço, não me lembro porquê (talvez não tivesse porquê).
Pelo retrovisor, logo depois do meu gesto, vejo que a mulher que
conduz o carro atrás do meu e que fazia sinal pisca para mudar de faixa
repete o mesmo gesto que eu fiz com o braço. Percebo então que esse
gesto que antes não tinha porquê passara a fazer parte de um diálogo e
tem agora um significado. Aparentemente, à medida que avanço
lentamente, a mulher desiste de mudar de faixa, talvez eu estivesse a
demorar demais, talvez aquele gesto a tivesse tranquilizado. Agora
seguia-me de mais perto. Como se o facto de estar cinco metros à frente
lhe desse paz de espírito. Paramos novamente. Arranco. Aceno com o
braço e mudo de faixa. Ainda não sei o que quer dizer aquele gesto.
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