quarta-feira, 7 de setembro de 2016

gesto

IC19 37,5 graus. Há bicha e está quente. Abro as janelas. Paro. Arranco. Bebo um pouco de água, decido-me pela música três faixas à frente, volto atrás, não, quero ouvir de novo esta. Faço um movimento qualquer com o braço, não me lembro porquê (talvez não tivesse porquê). Pelo retrovisor, logo depois do meu gesto, vejo que a mulher que conduz o carro atrás do meu e que fazia sinal pisca para mudar de faixa repete o mesmo gesto que eu fiz com o braço. Percebo então que esse gesto que antes não tinha porquê passara a fazer parte de um diálogo e tem agora um significado. Aparentemente, à medida que avanço lentamente, a mulher desiste de mudar de faixa, talvez eu estivesse a demorar demais, talvez aquele gesto a tivesse tranquilizado. Agora seguia-me de mais perto. Como se o facto de estar cinco metros à frente lhe desse paz de espírito. Paramos novamente. Arranco. Aceno com o braço e mudo de faixa. Ainda não sei o que quer dizer aquele gesto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

morrer, cair, desmaiar.


- Porque subiste por aquela encosta tão dura, se te faltavam as forças?
- Fugia.
- De quê?
- De um peso que me puxa para baixo. Tinha de subir, na hora em que o sol é mais terrível, essa hora em que as pedras e a terra chamam por nós. Sentia-me pó, que por todo o lado pairava e colava.
- Mas o teu corpo fraquejava.
- Não, naquela hora não era mulher. Talvez ao amanhecer, nas terras húmidas, o tivesse sido. Mas naquela hora as pedras falaram-me. Sabes, o perigo não é desmaiar, cair, morrer. É antes numa outra ordem que ele reside: morrer, cair, depois, talvez, desmaiar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Os mimos guardam um segredo




Uma vez perguntaram-me qual era o significado desta cena, a cena final do filme Blow-up, de Antonioni. Eu não tive, como é óbvio, resposta, como não terei para pergunta semelhante sobre nenhuma cena de nenhum filme. Achei ainda assim que é uma muito boa cena para falar sobre esta coisa das perguntas sobre os significados das coisas. É muito interessante tentar perceber, antes de qualquer debate semiológico, porque é que se anda sempre à procura da metáfora ou do que significa, do que quer dizer isto e aquilo. O que se terá passado para que se faça sentir na nossa cultura artística esta pulsão para "o que quer dizer" ou então, as avessas disto, "a arte que não quer dizer nada" porque é o contrário da arte que quer dizer qualquer coisa. Talvez fosse interessante, antes de mais nada, ver melhor a pergunta. É um lugar comum. Talvez, muitas vezes, quando se pergunta "o que quer dizer" não se esteja imediatamente a determinar esse dado como uma metáfora ou como um significado preciso. Na sua forma comum esta questão é banal e até pode ser interessante, porque a ambiguidade da linguagem o permite. O problema é quando ela se torna uma questão académica, institucional, onde "o que quer dizer" e o "que não quer dizer nada" assumiram proporções monstruosas. O curioso é que a questão "o que quer dizer" afasta-nos sempre do que se está a dizer, seja uma frase ou uma imagem, do que está a acontecer. Neste caso diz-se por gestos, movimentos de câmara, dos corpos e dos olhares. Os mimos talvez reflictam esse desejo de ver o que não está lá. Talvez. Mas isso não está nas imagens de forma absoluta. Os gestos são o que são. Não querem dizer. Podem ser mais do que são.  Neste caso, nesta cena, cria-se um espaço e um corpo completamente diferente, que envolve uma maneira de ver diferente do ver que estava implicado no olhar deste fotógrafo. E que tem a ver com um gesto ao qual se retirou o significado como centro: a bola. Talvez isto queira dizer qualquer coisa, talvez não. Perguntar "o que quer dizer" é sempre um movimento que se afastou do problema que é dado no real, é sempre uma espécie de ansiedade infantil pela resposta. Mas as crianças não perguntam tanto "o que quer dizer" como nós adultos e não perguntam apenas "o que quer dizer". Elas perguntam "e depois, o que se passou a seguir?", elas respondem, "não, não, não é isso", elas dizem o que está nas imagens em vez de verem o que está n"o que quer dizer".

sexta-feira, 29 de julho de 2016

medicina


Eu tento fazer filmes que sejam vistos por pessoas ou que sejam feitos por pessoas que tenham necessidade de os fazer para si. Da mesma maneira que um médico precisa de uma radiografia e o doente precisa de um médico e que, num certo momento, os dois precisam da radiografia para estabelecerem uma relação um com o outro. Tento fazer filmes assim, ou seja, por necessidade. (...) E eu tenho necessidade de ver mais longe, de fazer para aprender, de ler um mapa para viajar.

JLGodard, Introduction à une veritable Histoire du Cinéma, Albatros, 1980




Scénario du Film Passion 1982


sábado, 16 de julho de 2016

Preguiça


A alma adora nadar.
Para nadar deitamo-nos de barriga para baixo. A alma desloca-se e parte. Vai a nadar. (Se a vossa alma parte quando estão de pé, ou sentados, com os joelhos ou os cotovelos dobrados, para cada posição corporal diferente, a alma partirá com um andamento e uma forma diferentes...)
Costumamos falar de voar. Não é isso. É nadar o que ela faz. Ela nada como cobras e enguias, nunca de outra maneira.

 Henri Michaux, « La paresse » , Mes propriétés (1930), dans La Nuit remue (Poésie Gallimard, p. 110-111)

quinta-feira, 7 de julho de 2016

algumas faces de um cristal: o beijo

Jinny andava a correr, depois do pequeno almoço, e viu que as folhas se mexiam numa abertura da sebe. Pensou que fosse um pássaro no ninho, sentia-se assustada, as folhas continuavam a mexer-se. Passou a correr por Susan, Rhoda, Neville e Bernard, que conversavam na casa das ferramentas. Gritava e corria, cada vez mais depressa. As folhas verdes agitavam-se, o seu coração agitava-se. Foi contra Louis no meio dos arbustos e beijou-o. O seu coração saltava e as folhas continuavam a mexer-se sem haver nada a fazê-las mexer. Susan viu Jinny beijar Louis. Levantou a cabeça do seu vaso de flores e espreitou pela abertura da sebe e viu-os beijarem-se. Sentiu que tinha de embrulhar a sua ansiedade num lenço, dar-lhe um nó e fazer dele uma bola para a deixar entre as raízes das faias. Iria alimentar-se de nozes, procurar ovos entre as sarças e morrer ali. Bernard viu Susan a passar por eles, levava um lenço amarrotado como uma bola nas mãos. Os seus olhos pareciam os olhos de um gato antes de saltar. Deixou Neville e seguiu-a cuidadosamente para a poder consolar quando ela, cheia de raiva, pensasse : estou sozinha.

[paráfrase de um beijo narrado n'as Ondas de Virginia Woolf]

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Palavras de María Zambrano. Para Kiarostami.


E tudo o que rodeia o homem e ele próprio é arcano. O homem é a criatura à qual a realidade se dá como inacessível. Mas sentiu sempre a necessidade inaludível de clarificá-lo, de abrir caminho, de chegar a ele, de que lhe seja manifesto (...) Quando os deuses aparecem, é a sua forma que surge; ela é a novidade. Mas a forma não é só beleza, mas também capacidade de função. O que fica assegurado e libertado na forma é a função divina; o que encontra nela a sua garantia. Ao conceder-lhes forma, o poeta colaborou com os próprios deuses, como colabora todo aquele que serve uma revelação. (...) Cada deus abre um caminho no arcano inicial, no "pleno" que é, originalmente, a realidade que rodeia o homem. Não é o vazio a povoar-se de deuses, mas ao contrário: é o pleno da plenitude arcana, sagrada, aquele que se abre, se torna acessível através dos deuses (...) Transitar é, precisamente, viver, poder e ter para onde ir.