sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

uma infância

Há no cinema qualquer coisa que tem a ver com a infância. Acredito que quando a arte nos acontece, ela se ligue sempre à infância. Não digo à nossa infância, muito menos a infância de um eu, porque não se trata, nesse acontecimento, de uma rememoração ou de um reconhecimento da infância que eu, tu, ele ou ela, vivemos. Ainda que isso também possa acontecer e não haja mal nisso, quando a arte acontece há uma expansão da infância, ela abre um tempo e um espaço expandidos. É verdade que encontro no Pierrot, le Fou, um dos meus filmes preferidos, pormenores directamente ligados à minha infância vivida e pessoal. Muitos daqueles postais de pintura moderna, colados nas paredes, a banda desenhada que percorre o filme, os livros, tudo aquilo era, literalmente, muito lá de casa, como hoje se diz tanto. Mas não é disso que é feito o acontecimento estético, e se se procura no conforto do familiar e do pessoal uma percepção artística, penso que nos enganamos redondamente. Não, a infância que no Pierrot se me abre (ou me abre, fende?), é uma infância não reconhecida e indefinida, uma infância em devir, que também me acontece em filmes tão diferentes como The Searchers, The Ghost and Mrs Muir, El Sol Del Membrillo ou La Région Centrale... A infância da arte não é, não pode ser minha nem tua. Acontece, como disse um filósofo genial, como a chuva: "it rains", com a força do impessoal, do isso. O fenómeno da infância como uma chuva, um vento.

sábado, 23 de dezembro de 2023

o bom escritor


O bom escritor não diz mais do que aquilo que pensa. E muita coisa depende disso. É que o dizer não é apenas a expressão, mas também a realização do pensamento. Do mesmo modo, andar não é apenas a expressão de um desejo de alcançar um objectivo, mas a sua realização. Já a natureza dessa realização, se ela é conforme ao seu objectivo de forma exacta ou se se perde, exuberante ou imprecisa, no desejo – isso depende do treino daquele que está a caminho. Quanto mais disciplinado for, evitando os movimentos supérfluos, gesticulantes e deambulantes, tanto mais cada postura do corpo se basta a si mesma, e tanto mais adequada a sua actuação. O mau escritor tem muitas ideias e esgota-se nelas, como o mau corredor, não treinado nos movimentos indolentes e impulsivos dos membros. Mas é por isso mesmo que ele nunca pode dizer sobriamente o que pensa. O dom do bom escritor é o de, pelo seu estilo, dar ao pensamento o espectáculo oferecido por um corpo treinado com inteligência e eficácia. Nunca diz mais do que aquilo que pensou. Assim, a sua escrita aproveita, não a ele próprio, mas tão somente aquilo que quer dizer.


Walter Benjamin, «Pequenas habilidades», Imagens de pensamento, ed. e trad. João Barrento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, pp. 255-6.

olhar para cima


Depois de uma pequena caminhada pela floresta, ainda com uma frase na cabeça, de uma conversa telefónica: 'mas e o que se faz enquanto se espera?' escrevo este pequenino texto, feito como notas que se escrevem, como dizia uma escritora no seu diário, para evitar que os momentos de uma vida se desperdicem, como quando se deixa uma torneira aberta. Pensei que poderia chamar-se "olhar para cima", provavelmente porque enquanto falava ao telefone, a caminhar, ao surgir no meio da conversa essa frase sobre a espera, me encostei a uma árvore e olhei para o céu. Não foi junto a uma árvore que os dois sujeitos rocambolescos daquela peça esperaram por aqueloutro senhor que nunca mais chegava, sem saber quais os contornos dessa espera? Talvez enquanto esperamos pudéssemos olhar para cima, devo ter pensado, para o céu azul ou para as nuvens. Ouvi outra escritora dizer que gostamos de olhar para as nuvens porque elas nos fazem pôr o coração ao alto, nos fazem olhar para cima, e que os cientistas cognitivistas dizem que colocamos sempre os deuses num lugar ao alto, seja no céu ou num monte grego, porque olhar para cima causa uma subida de dopamina no cérebro. Eles lá sabem. Mas sabemos também nós como as nuvens inventam a nossa livre imaginação, quando nos deitamos na areia quente da praia num dia de verão a olhar para as suas formas moventes no céu e imaginamos todo o tipo de animais fabulosos e pequenas histórias. Cheguei a casa, abri o computador, deitei fora um pequenino papel que tinha passado as últimas horas a esfarelar dentro do bolso do impermeável, como quem deita fora o último vestígio de alguma coisa que se quer esquecer e sentei-me para escrever: olhar para cima. 



sábado, 16 de dezembro de 2023

atenção

talvez desaparecer naquilo que se vê seja a melhor formulação da atenção que até agora encontrei. não se trata de nos esquecermos de nós, de por momentos acreditarmos no que vemos, mas da experiência de uma passagem naquilo que se vê, que nos retira de uma relação eu-mundo e nos torna mundo.

domingo, 26 de novembro de 2023

da densidade da prisão

Da densidade da prisão surge a voz desse outro em nós. o canto traz uma avalanche de coisas das profundezas, não sob a forma de linguagem, mas de ritmo. cântico dos cânticos, sopro vital, contorcionismo vocal, murmúrio ondino, devaneio amortecedor emudecedor dos gritos intensificados pela ausência. 

diz o poeta palestino:

"Prison is density. No one spends a night there without training his throat on what resembles singing, for that is the way one is allowed to tame solitude and preserve the dignity of pain. To hear your own hoarse voice means that your other has spent the night with you and whispered your personal news to you in a room. The narrower it becomes, the wider what lies beyond it grows. You embrace the world, infatuated with reconciliation."                                    

Mamoud Darwish, "In the Presence of Absence". Tradução do árabe de Sinan Antoon. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

imagens e mais imagens

Quando ouvi aquela música na rádio, o aqui ao luar, dos Xutos, a impressão foi intensa. mesmo apresentando-se esbatida ou longínqua, era forte e parecia querer arrancar-me dali. A sensação de ter esquecido a fonte daquela intensidade perturbava. algo nela me era muito familiar, importante, sem dúvida, mas não me lembrava de onde. Fiz pisca para a esquerda, indecisa, pois se optasse pela lasanha feita em vez do jantar de petiscos ainda a fazer com húmus e guacamole, deveria fazer pisca para a direita, uma buzinadela de algum estressado atrás de mim, as miúdas a fofocar lá atrás e, apesar da confusão de sons e de acções sobrepostas, apesar de procurar manter-me concentrada nas minhas acções imediatas, aqueloutra impressão parecia ainda mais imediata e a sua intensidade, mesmo depois de diminuir o som da  música, para me manter atenta, destacava-se. A impressão ganhou autonomia à minha revelia. Traçava o seu próprio percurso. aquela música tinha activado um dispositivo qualquer e começavam a cair imagens e mais imagens, como na descida de Virgílio, como naquelas máquinas antigas de diapositivos, caíam e projectavam-se no ecrã da minha cabeça. Mas eu afastava-as, porque tinha de ver a estrada, ultrapassar a barreira sonora, deixar a senhora e o seu cão atravessarem na passadeira e não deixar de esboçar um sorriso. Iam caindo com uma sequência algo dispersa, mas começavam a fazer sentido, já sabia de onde vinha a música. Tocava num restaurante de praia, depois de um jantar com muitas pessoas, e tinha ficado gravada no meu corpo quando saí para a falésia e desci as escadas até à praia. impressão complexa, esta, quando a recebi no carro, era já feita de tantas camadas de imagens e associações de impressões. não podia dizer da impressão que a música me causara que estava no passado nem no presente, ela era puro virtual, sempre outra, à luz do devir da minha vida.

domingo, 12 de novembro de 2023

primeira memória

Sempre que encontro um certo tipo de porta, aquelas portas, muitas vezes em cozinhas, que têm uma parte de vidro em cima, sou tomada por uma estranha e intensa mistura de sensações, ao mesmo tempo angustiante e reconfortante. Todas essas portas, estejam elas onde estiverem e esteja eu onde estiver, me são muito familiares e me provocam esta forte impressão que encontro na minha infância. Tento aguentar-me tanto quanto posso em bicos de pés. Não aguento e vou abaixo, mas volto aos biquinhos dos dedos, já doridos, para os olhos alcançarem o vidro da porta e esqueirar o olhar para lá do vidro. Há imensa luz lá fora. É quase ofuscante. Sinto o calor do sol a tocar-me na pele. O queixo, quando me ponho em bicos de pés, alcança a bandeira da janela, apoiando-se nela, como que encaixado, contra o vidro frio. Vejo-me assim, pequenina, naquela posição de equilíbrio e chamo alguém: Bebu, Bebu. Só uma nesga de árvores, talvez ameixeiras, ao fundo. Dele já não há rastro. Mas a janela é o lugar onde devo ficar, sempre a tentar alcançar com os olhos, agarrada como posso, esse mundo lá fora para onde fugiu o meu irmão.