não há agora a praia, de preferência deserta, para gritar e às vezes um suspiro não chega. escreve-se qualquer coisa o mais
rapidamente possível e sem cortes. o acordar é estranho, tudo a rodar mal
ponho o pé no chão, pelo que a primeira coisa a fazer é mesmo o café. depois
acordar as duas miúdas da casa, a loura e a morena, mas já com a roupa ali à
frente dos olhos para pouparem os dez minutos do costume com o argumento de que
não sabem o que vestir. gosto de as chamar devagar, uma a uma, com beijos e falas
doces à mistura, que o acordar é uma coisa tremenda. é a parte mais deliciosa da manhã, esse momento em que se
fala baixinho e em que ainda cheiramos todos a noite, sonhos e preguiça. logo a seguir tento
entrar tanto quanto me é possível no modo máquina, com um programa definido:
pôr comida na mesa. a fruta primeiro, se não não comem fruta, depois o resto,
pão, mel. enquanto comem ir tomar duche, rápido, voltar para ver se está tudo ok, mas uma já se besuntou toda de mel e tem de mudar a t-shirt, respiro
fundo. mas qual é que eu visto? não sei qual é que fica bem! uma qualquer, uma
qualquer (começo a usar um tom mais alto). entretanto preciso do tal café, tenho de comer alguma coisa antes, ainda
de toalha no corpo, demoro demasiado com o café, que era só para engolir, não
para saborear. porque é que estou a sentir o pé todo molhado, será que não me
limpei bem? ah entornou-se o leite no chão, eu limpo eu limpo, sim? mas não, querida, deixa lá, não limpes (é melhor não), depois trato disso. estamos atrasadas, tenho de me vestir,
esqueço o café, tenho de preparar as lancheiras, não, elas já cresceram, as miúdas (e não reparei), está tudo aqui, pronto, é só pôr nas
lancheiras, sim? preparo-me para sair de casa. pinto os lábios sem espelho, não preciso de espelho. calcem-se e penteiem-se vá lá, vá lá, é já (eu já disse isto dez vezes) quantas vezes mais tenho de repetir, e entretanto a
morena decide ir limpar os ténis como me viu fazer antes, com um algodão húmido, oh que bom, penso cá para mim meia nostálgica, já faz aquilo sozinha, mas depois sinto um cheiro estranho na casa
de banho, ao mesmo tempo que reparo que o tecto rachou mais uma vez e está a pingar água. não, não, por favor não me digas que usaste acetona para limpar os
ténis? pois, sim. todos estragados. bora, vamos sair. agora! mas ainda não mudei de
t-shirt. paciência, é agora! o carro? onde está o carro? oh não, está a milhas, por causa das obras. apanhamos um táxi, senão faltam à ginástica e eu à reunião.
táxi! mãe, tens batom nos dentes. entramos no carro, bom dia. é uma senhora taxista, simpática qb. limpo os dentes com o dedo, já está bem? reparo que me
esqueci do telemóvel, ainda tenho de o ir buscar a casa (perfeito), a paisagem de areia, gruas
coloridas de várias dimensões e o som das máquinas dura o caminho todo. aquela paisagem estranha por vezes é agradável. chegamos à escola. beijos, bom dia. fecho a porta da escola. sigo a pé. dia de sol em lisboa e o rio muito azul ao fundo. seguem-se aqueles instantes em que não penso em nada, ou, o que parece ir dar
ao mesmo, em que o pensamento se deixa impregnar de tudo, freneticamente e em
simultâneo, numa torrente de cruzamentos e choques, derivações, encontros e
fugas sem fim. volto a mim. tenho de saber as horas. sigo por uma rua não
muito longe daquela que todos os dias costumo seguir, muito perto até,
seguramente, pois pelas suas brechas e travessas consigo ver todos os meus
caminhos costumeiros. encontro um velho a quem pergunto as horas. responde-me
contrafeito que não é essa a pergunta, com certeza, e põe-se diante de mim,
assim como quem espera a pergunta certa. olho com atenção para mim, para as
minhas mãos e para a roupa que trago vestida, a ver se as reconheço. depois
olho para o velho, procuro reformular a questão, mas só me sai um: queria
saber as horas, por acaso sabe? é que não tenho horas. e acha que eu tenho disso? diz-me
o velho. não, não, deixe lá. apetecia-me sorrir-lhe mas continuo em frente.
sei o suficiente sobre as horas para acelerar o passo, mas a
rua parece nunca mais acabar e pelas ruelas e brechas que a atravessam lá vou eu vislumbrando de raspão todos esses trajectos feitos outras tantas vezes, e os
tempos todos sobrepostos, naquela rua.
Well! I've often seen a cat without a grin - thought Alice - but a grin without a cat! It's the most curious thing I ever saw in my life!
quinta-feira, 18 de maio de 2017
terça-feira, 16 de maio de 2017
Ce n'est que par soudaines explosions que la conscience souterraine, réussissant à forer l'écorce des jours, jaillit comme un jet brûlant de puits artésien, - pour quelques secondes seulement -, de nouveau disparue et sucée par les lèvres de la terre.
Apenas por súbitas explosões a consciência subterrânea, conseguindo perfurar a casca dos dias, jorra como um jacto ardente de um poço artesiano, - apenas por alguns segundos - voltando a desaparecer, sugada pelos lábios da terra.
Apenas por súbitas explosões a consciência subterrânea, conseguindo perfurar a casca dos dias, jorra como um jacto ardente de um poço artesiano, - apenas por alguns segundos - voltando a desaparecer, sugada pelos lábios da terra.
Romain Rolland, Le Voyage intérieur: Songe d'une vie
Éditions Albin Michel, Paris.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
jogos
todos teremos talvez experimentado, em crianças, essa fase em que queremos saber quanto tempo aguentamos sem respirar. cronometramos e experimentamos suspender a respiração até não aguentarmos mais: debaixo de água ou de uma almofada. é um pôr-se à prova, um exercício de aproximação a essa estranha imobilidade, uma espécie de jogo de suspensão da vida. talvez fosse um pouco o mesmo que procurávamos, eu e o meu irmão, quando nos fingíamos de mortos. não só para assustar os adultos, mas para pôr à prova quanto tempo aguentávamos parar os movimentos da caixa torácica e os minúsculos movimentos do corpo, do rosto, apreendendo também, aos poucos, qualquer coisa essencial, sobre o sentido voluntário e involuntário das nossas acções e decisões corporais. e se numa esquina qualquer, a meio dum percurso quotidiano, um espaço enquadrado de maneira aparentemente arbitrária nos aparecer com tantas perspectivas diferentes que se torne impossível ver, produzindo-se um descentramento tal que a escolha se torne inviável, imponderável, inescrutável? produz-se uma suspensão do sentido das coisas, uma imobilidade, e voltamos a essa espécie de jogo originário da infância. uma síncope, uma pequena morte em vida. e outra vez esse jogo: quanto tempo aguentas nem morto nem vivo? a decisão acabará fatalmente por vir, tão natural quanto desesperadamente, como o sopro de ar que se inspira quando não se pode mais sem respirar. inúmeras são as vezes em que não há escolha, mas antes minúsculas decisões involuntárias, advindas de jogos deste tipo. qual a margem, o limite, entre a escolha e a decisão? acender ou não o cigarro, atravessar ou não com o sinal vermelho, calçar ou não estas meias, aceitar ou não um lapso de linguagem que pode determinar como se vive. há qualquer coisa simultaneamente anódina e dramática nestas pequeninas decisões: a certeza inconfessável de que não são mensuráveis. quero os dois livros que folheio na livraria. só posso levar um, mas quero os dois. levo este. não necessariamente porque me interesse mais. por vezes a dimensão, o material, a relação táctil entre o livro e a minha mão, qualquer outra coisa alheia ao livro em si. dos dois indivíduos a quem me posso dirigir para o comprar, dirijo-me a um e não ao outro que até estava mais próximo de mim, terá sido aquele seu minúsculo gesto facial com o sobrolho direito, terá ele captado a minha atenção? que estranha atenção esta que nos habita, uma atenção esburacada, que ao mesmo tempo nos agarra e faz cair.
um sonho de outubro
Um sonho de Outubro passado. Num bar que conheço bem, plantado em cima de uma praia, em parte seria o Sargo, na Parede, mas com uma escadaria muito mais alta. Tinha várias camadas, varanda e terraço. E também cave. Quando abro a pequena porta para a cave, à direita, encontro uma pequenina divisão com livros, mesinhas pequenas e fauteiuilles anos 20. Há caderninhos de notas de todas as formas, cores. Reconheço alguns como meus, outros não. Sigo em frente, o corredor é feito de areia e pedra e, novamente à direita, há uma arcada feita de rocha que vai dar directamente ao mar. Vou molhar os pés. A maré está vazia mas pode subir de repente e aquela cave está fechada. Então é aqui que vou morrer, penso. Volto à pequena divisão dos livros, trago comigo dois caderninhos, um maior e um mais pequeno. Abro a pequena porta e saio da cave. Vou tomar café ao terraço, que é mais alto.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
chuva
e veio a chuva, muita chuva, inesperadamente, apesar da nuvem negra e pesada a norte o indicar. e eu que já não esperava nada de novo por hoje e nem nos próximos dias. se os dias se repetem indefinidamente iguais, desconfio que não seja vida. mas ela surpreende, assim, na mais singela gota de chuva, e vem outra vez esse hábito um pouco terrível de uma muito vaga esperança. também nos sonhos me visita o inesperado, por mais recorrentes eles que sejam, como o de voar - ou será melhor dizer pairar - por cima dos lugares, com todas as suas variações, desde o sonho em que há a minha decisão de voar, que efectuo por vontade, de fugir ou de outra coisa qualquer que agora não sei identificar, até à gradual constatação de que estou a ficar mais leve e começo a pairar e depois a subir a subir, de braços abertos como que para me equilibrar, e a ver tudo de cima, à distância e sem enquadramento possível, sem contornos ou com contornos sempre móveis. por vezes já não voo há tanto tempo que o medo de não o conseguir fazer me toma, como quando deixo de andar de bicicleta durante tanto tempo e temo já não saber como. mas, tal como se diz que nunca nos esquecemos como se anda de bicicleta, assim acontece com o voo. e há aquele outro sonho recorrente, o das casas. varia indefinidamente, claro, é feito de muitos sonhos e de muitas casas, umas em que vivi efectivamente e outras que só nos sonhos habitei, mas na maior parte são verdadeiras misturas de umas e outras. dei-me conta, ao mesmo tempo que suspirei de alívio com a torrente de chuva e a força das gotas no vidro do carro e depois no corpo, quando saí para me molhar, que não são só as casas onde vivi que afectam as dos meus sonhos, mas que as casas dos meus sonhos determinam os espaços em que estou. aconteceu, por exemplo ainda há pouco, a escorrer água, entrar num pequeno café onde nunca entrara antes e conhecê-lo tão perfeitamente, de sonhos seguramente, saber exactamente o canto para onde queria ir, sentir-me em casa.
sexta-feira, 28 de abril de 2017
sair, sair agilmente, subtilmente, gentilmente, sair. sim sim. abandonar a terra, o país, o lugar, o café, a esquina, o vão de escada, a cama, a sala. abandonar o espaço. rápido. antes que o gesto te exceda, antes que fale, antes que venha assim em bruto, cheio de real, com os seus fantasmas, duplos, reflexos, a transbordar matéria.
quinta-feira, 20 de abril de 2017
como se estivesse em agosto
Estou todo no mês de agosto
Estou escarranchado no lombo nutrido de agosto
sentado à mesa de um café envolto no manto de múltiplas vozes
olhando pela janela uma toalha de mar e a terra ao fundo
debaixo do céu azul e branco do sol e do vento
café e vozes céu terra e mar tudo coisas talvez de agosto
objectos que o deus deste mês se porventura dada a fartura houver também um deus para os meses
utiliza para que assim toda a gente possa falar univocamente de agosto
e agosto não seja o nome frio dos números
mas seja um tempo e a orla da água que banha os pés desse tempo
e as coisas que existem na mão aberta desse tempo
Agosto não é o oitavo mês do ano
as férias há muito previstas e marcadas o sítio
de certos rostos por um instante resplandecentes mas cedo bebidos pelo esquecimento
talvez para o ano vindos na vaga de um novo mês de agosto
Agosto são muitos jornais vagarosamente lidos
de páginas uma a uma passadas como os trinta e um dias deste mês
agosto é o espaço do pensamento da boca boquiaberta
do sol outra vez usado como o único relógio de pulso
Agosto é o regresso dos emigrantes o mês da morte na estrada dos emigrantes
de uns homens que antes eram portugueses e hoje são emigrantes
e voltam a estas paragens como as aves às terras serenas e avaras do norte
Agosto é a estrada estreita que o mar enfia nos campos
como faca que fura sebes de canas campos de couves
e ensombra ainda um pouco mais a sombra de certas árvores
Agosto é eu estar aqui é trazer as mangas arregaçadas
é envelhecer ao sol na dispersão distraída de determinados gestos
é saber que estou de momento separado de secretárias com muitos problemas em suspenso
que me sento numa pedra e oiço uma música e reconheço a minha forma mais frequente de me sentir vivo
embora depois complique o que sinto e diga talvez que me sinto feliz
Por vezes agosto é o nevoeiro essa espessura de certa maneira branca
que me faz pensar que penso e achar que há uma certa profundidade no que por vezes penso
nevoeiro que mora um tempo na minha cabeça e depois
desce até às páginas do livro que leio de maneira diferente
dos livros que leio nos outros meses do ano
Agosto não é a pura palavra não é determinada designação para um tempo
onde cada uma destas coisas anualmente se encontra comigo
Agosto são talvez estas palavras todas onde me perco onde procuro pôr os meus passos
onde afinal penso que permaneço um pouco mais do que no frágil edifício dos dias
Não escrevo neste domingo de agosto onde já houve sinos
e há gestos diferentes dos mesmos gestos que fazemos nos outros dias
Estou um pouco nestas palavras na própria
palavra agosto que ponho sobre o papel
e que embora aponte para agosto não é esse mês de agosto
Estou em agosto estou um pouco em agosto
sentado à mesa de um café envolto no manto de múltiplas vozes
olhando pela janela uma toalha de mar e a terra ao fundo
debaixo do céu azul e branco do sol e do vento
café e vozes céu terra e mar tudo coisas talvez de agosto
objectos que o deus deste mês se porventura dada a fartura houver também um deus para os meses
utiliza para que assim toda a gente possa falar univocamente de agosto
e agosto não seja o nome frio dos números
mas seja um tempo e a orla da água que banha os pés desse tempo
e as coisas que existem na mão aberta desse tempo
Agosto não é o oitavo mês do ano
as férias há muito previstas e marcadas o sítio
de certos rostos por um instante resplandecentes mas cedo bebidos pelo esquecimento
talvez para o ano vindos na vaga de um novo mês de agosto
Agosto são muitos jornais vagarosamente lidos
de páginas uma a uma passadas como os trinta e um dias deste mês
agosto é o espaço do pensamento da boca boquiaberta
do sol outra vez usado como o único relógio de pulso
Agosto é o regresso dos emigrantes o mês da morte na estrada dos emigrantes
de uns homens que antes eram portugueses e hoje são emigrantes
e voltam a estas paragens como as aves às terras serenas e avaras do norte
Agosto é a estrada estreita que o mar enfia nos campos
como faca que fura sebes de canas campos de couves
e ensombra ainda um pouco mais a sombra de certas árvores
Agosto é eu estar aqui é trazer as mangas arregaçadas
é envelhecer ao sol na dispersão distraída de determinados gestos
é saber que estou de momento separado de secretárias com muitos problemas em suspenso
que me sento numa pedra e oiço uma música e reconheço a minha forma mais frequente de me sentir vivo
embora depois complique o que sinto e diga talvez que me sinto feliz
Por vezes agosto é o nevoeiro essa espessura de certa maneira branca
que me faz pensar que penso e achar que há uma certa profundidade no que por vezes penso
nevoeiro que mora um tempo na minha cabeça e depois
desce até às páginas do livro que leio de maneira diferente
dos livros que leio nos outros meses do ano
Agosto não é a pura palavra não é determinada designação para um tempo
onde cada uma destas coisas anualmente se encontra comigo
Agosto são talvez estas palavras todas onde me perco onde procuro pôr os meus passos
onde afinal penso que permaneço um pouco mais do que no frágil edifício dos dias
Não escrevo neste domingo de agosto onde já houve sinos
e há gestos diferentes dos mesmos gestos que fazemos nos outros dias
Estou um pouco nestas palavras na própria
palavra agosto que ponho sobre o papel
e que embora aponte para agosto não é esse mês de agosto
Estou em agosto estou um pouco em agosto
(Ruy Belo, "Toda a Terra", Obra Poética de Ruy Belo, Vol. 2, Editorial Presença, Porto, 1981, p. 171)
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