domingo, 15 de maio de 2016

A mulher sem sombra

A mulher sem sombra - vinda de um reino longínquo habitado por seres que não conhecem a duração, a impenetrabilidade ou o peso da matéria - por amor, substituiu a ligeireza pelo peso e a transparência pela opacidade, adquiriu um corpo e casou-se com o imperador de um reino de que ignoramos o lugar e o tempo. Mas o corpo da imperatriz guardava ainda vestígios da sua pátria longínqua. Era um corpo que não era afectado pela luz. A mulher sem sombra é a mulher que não pode conceber: é a primeira narrativa de Hofmannsthal em que ouvimos os apelos das crianças que ainda não nasceram, quando estão quase a nascer, que queriam nascer e que pedem que alguém esteja pronto para as ouvir e receber.

C’est un récit absolument incantatoire et d’une violence presque mythique, car tout se passe sur un plan où nous ne savons pas si nous rêvons ou bien si nous sommes dans le rêve d’un autre, sentant que ce qui s’y passe est un secret que cet autre ne peut garder pour soi. Ce sont des plans de réalité séparés par des frontières très fines, à travers lesquelles il y a des transferts constants opérés par des forces oniriques. La femme sans ombre – venue d’un royaume lointain habité par des êtres qui ne connaissent ni la dureté, ni l’impénétrabilité, ni le poids de la matière – est celle qui, par amour, remplace pour toujours la légèreté par le poids, la transparence par l’opacité, acquiert un corps et épouse l’empereur d’un royaume dont nous ignorons.

Maria Filomena Molder, Rue Descartes, n° 39, 2003/1, Wittgenstein et le paradigme de l'art





quinta-feira, 12 de maio de 2016

Bia

Os Songhai, povo do Níger e do Mali, acreditavam que o ser humano consistia em três elementos: ga (carne), hundi (força vital) e bia (o duplo)
 A carne é o nosso elemento material, o corpo. A força vital situa-se no coração, desde o nascimento e dissipa-se no momento da morte. O duplo é o nosso aspecto imaterial: vêmo-lo como um reflexo de nós mesmos na superfície da água ou num espelho. O duplo marca a individualidade do nosso ser. É o duplo que dita o tom das nossas personalidades, dos nossos gostos e desgostos, a qualidade da nossa expressão. É o nosso ser no mundo. Bia é um poder de deslocamento.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Inquietante cinzento. Melville.


Everything was mute and calm; everything gray. The sea, though undulated into long roods of swells, seemed fixed, and was sleeked at the surface like waved lead that has cooled and set in the smelter’s mould. The sky seemed a gray surtout. Flights of troubled gray fowl, kith and kin with flights of troubled gray vapors among which they were mixed, skimmed low and fitfully over the waters, as swallows over meadows before storms. Shadows present, foreshadowing deeper shadows to come.

(Benito Cereno, início)

Most melancholy of all the hours of earth, is that one long, gray hour, which to the watcher by the lamp intervenes between the night and day; when both lamp and watcher, over-tasked, grow sickly in the pallid light; and the watcher, seeking for no gladness in the dawn, sees naught but garish vapors there; and almost invokes a curse upon the public day, that shall invade his lonely night of sufferance.
The one small window of his closet looked forth upon the meadow, and across the river, and far away to the distant heights, storied with the great deeds of the Glendinnings. Many a time had Pierre sought this window before sunrise, to behold the blood-red, out-flinging dawn, that would wrap those purple hills as with a banner. But now the morning dawned in mist and rain, and came drizzlingly upon his heart. Yet as the day advanced, and once more showed to him the accustomed features of his room by that natural light, which, till this very moment, had never lighted him but to his joy; now that the day, and not the night, was witness to his woe; now first the dread reality came appallingly upon him. A sense of horrible forlornness, feebleness, impotence, and infinite, eternal desolation possessed him. It was not merely mental, but corporeal also. He could not stand; and when he tried to sit, his arms fell floorwards as tied to leaden weights. Dragging his ball and chain, he fell upon his bed; for when the mind is cast down, only in sympathetic proneness can the body rest; whence the bed is often Grief's first refuge. Half stupefied, as with opium, he fell into the profoundest sleep.

(Pierre, or the ambiguities, V, III) 

In sight at gray dawn, the distant vessel, though in reality approaching, recedes from view, as the sun rises higher and higher. This holds true, till its vicinity makes it readily fall within the ordinary scope of vision. And thus, too, here and there, with other distant things: the more light you throw on them, the more you obscure. Some revelations show best in a twilight.

(Mardi, XIX)

It was in the cool of the early morning, at that hour when a man's
face can be known, that we set sail from Diranda; and in the ghostly
twilight, our thoughts reverted to the phantom that so suddenly had
cleared the plain. 

(Mardi, XXXVIII)


sábado, 9 de abril de 2016

Visão






Ter uma visão não é ver muito bem, ver mais profundamente ou ver mais. Ter uma visão envolve um outro poder : um ver que não fixa nem se fixa e que capta o nunca visto, que capta isso que vem e devem. Isso que vem não cessa de se aproximar dos nossos olhos, mas nós não vemos pois ainda não é para nós, ou é para nós mas enquanto já não nos reconhecermos a nós mesmos, quer dizer, é para nós enquanto estivermos em vias de mudar. O verdadeiro rosto é mutante.







fotogramas de A Terra de Alexander Dovzhenko

sábado, 2 de abril de 2016

sentidos arcaicos guardados no uso das palavras: aîon, chronos, kairos.

No grego moderno kairos diz-se do tempo meteorológico, que se vê, se sente e por isso também se prevê, ainda que essa previsão seja sempre indeterminada. Mas sobretudo é sensível: o suor numa camisola é kairos, ele passa na matéria e impregna-a. Aîon usa-se para designar século, guardando do seu sentido arcaico a sua imensidão face ao nosso ponto de vista limitado, a sua indeterminação. Chronos diz-se do tempo dos relógios, do tempo que se demora objectivamente daqui para ali, do tempo que sabemos ter e não ter. Do tempo racional. Há no kairos, tempo da ocasião, uma certa mundaneidade primitiva, ele é acessível a todos os que lhe prestam atenção, está impresso nas coisas, habita-as. Ao Aîon ninguém acede senão os deuses, profetas, adivinhos e videntes. Esconde um segredo demasiado grande e trágico, de vida e de morte. Ao kairos atende-se numa espécie de jogo lúdico, entre a constatação de factos e a decifração de vestígios......

nuance

Penso no bando de nuances de sensações que imagino como aqueles bandos de Michaux ou de pássaros ou de cardumes em movimento que, numa intuição tão vaga quanto precisa de perigo iminente, ondulam num movimento puro de afectos expresso por gradações, nuances.  Aproximam-se, tocam-se, passam umas nas outras para de imediato se distinguirem intensa, subtilmente. Tudo se quer encontrar com tudo, numa emergência contínua de irregularidades, anomalias, disfunções, de bruscas interrupções sufocantes e retomadas de ar puro. E neste jogo, por vezes um combate violento, para além das separações e uniões mais ou menos brutais, há uma série de padrões que se repetem mas nunca iguais, pois cada gesto sendo vivo, quente, rítmico não conhece a repetição mecânica e a forma que cria é sempre um anseio de forma. Que difícil é hoje encontrar a nuance. Tudo insuportavelmente peneirado, abarrotado, espartilhado. Encontra-se fora, seguramente, mas não basta sair. É por isso que o céu e os movimentos das nuvens ou as ínfimas percepções do enorme mar (e talvez o deserto), algumas músicas e algumas imagens, têm esse efeito de um inquietante apaziguamento: como que assegurando-nos que a nuance insiste, persiste. Mas é preciso tempo vivo (este segundo, esta hora) para captá-la na espuma indiferenciada dos dias.

domingo, 20 de março de 2016

The Mark on the Wall * A Marca na Parede


But after life. The slow pulling down of thick green stalks so that the cup of the flower, as it turns over, deluges one with purple and red light. Why, after all, should one not be born there as one is born here, helpless, speechless, unable to focus one’s eyesight, groping at the roots of the grass, at the toes of the Giants? As for saying which are trees, and which are men and women, or whether there are such things, that one won’t be in a condition to do for fifty years or so. There will be nothing but spaces of light and dark, intersected by thick stalks, and rather higher up perhaps, rose-shaped blots of an indistinct colour—dim pinks and blues—which will, as time goes on, become more definite, become—I don’t know what....
 (...)
All the time I’m dressing up the figure of myself in my own mind, lovingly, stealthily, not openly adoring it, for if I did that, I should catch myself out, and stretch my hand at once for a book in self-protection. Indeed, it is curious how instinctively one protects the image of oneself from idolatry or any other handling that could make it ridiculous, or too unlike the original to be believed in any longer. Or is it not so very curious after all? It is a matter of great importance. Suppose the looking glass smashes, the image disappears, and the romantic figure with the green of forest depths all about it is there no longer, but only that shell of a person which is seen by other people—what an airless, shallow, bald, prominent world it becomes! A world not to be lived in. As we face each other in omnibuses and underground railways we are looking into the mirror that accounts for the vagueness, the gleam of glassiness, in our eyes. And the novelists in future will realize more and more the importance of these reflections, for of course there is not one reflection but an almost infinite number; those are the depths they will explore, those the phantoms they will pursue, leaving the description of reality more and more out of their stories, taking a knowledge of it for granted, as the Greeks did and Shakespeare perhaps—but these generalizations are very worthless. The military sound of the word is enough. It recalls leading articles, cabinet ministers—a whole class of things indeed which as a child one thought the thing itself, the standard thing, the real thing, from which one could not depart save at the risk of nameless damnation. 


Mas a vida. A lenta derrocada dos grandes caules verdes de tal modo que a flor acaba por se virar, ao cair, inundando-nos com uma luz de púrpura e vermelho. Porque é que, bem vistas as coisas, não nascemos ali, em vez de aqui, desamparados, incapazes de ajustarmos como deve ser a luz do olhar, rastejando na erva entre as raízes, entre os calcanhares dos gigantes? Porque dizer o que são as árvores e o que são e o que são mulheres, ou sequer o que é haver coisas como árvores, homens e mulheres, não será algo que estejamos em condições de fazer nos próximos cinquenta anos. Não há nada por vezes senão espaços de luz e de escuridão, intersectados por grandes hastes densas e talvez bastante mais acima manchas em forma de rosa – rosa-pálido ou azul-pálido – de cor indecisa, e tudo isso, à medida que o tempo passa, se vai tornando mais definido e se transforma – em não se pode saber o quê.
(...)
A todo o momento vou construindo uma imagem de mim própria, apaixonadamente furtiva, que não posso adorar directamente, porque se o fizesse cairia imediatamente em mim e deitaria  a mão a um livro num gesto de autodefesa. É curioso, com efeito, como uma pessoa protege a sua própria imagem de toda a idolatria ou de qualquer outro sentimento que a possa tornar ridícula ou demasiado diferente do original para ser verosímil. Ou talvez não seja assim tão curioso afinal de contas? É uma questão da mais alta importância. Imagine-se que o espelho se partia, a imagem desaparece e a figura romântica rodeada pela floresta profunda e verde desfaz-se; fica apenas essa concha exterior da pessoa que os outros habitualmente vêem - que insípido, oco, inútil e pesado se tornaria o mundo! Um mundo onde não seria possível viver. Quando no autocarro ou sobre os carris do metropolitano encaramos os outros, estamos ao mesmo tempo a olhar para o espelho; é por isso que se torna possível vermos então como os nossos olhos são vagos, vítreos. E os romancistas do futuro darão uma importância crescente a estes reflexos, porque não há apenas um reflexo, mas um número quase infinito deste género de refracções : aí estão as profundezas que os romancistas do futuro terão que explorar; esses os fantasmas que terão de perseguir, deixando cada vez mais de lado as descrições da realidade, pressupondo-a já suficientemente conhecida pelo leitor, como fizeram também os Gregos e Shakespeare, talvez - mas estas generalizações começam a parecer-me inúteis. As ressonâncias militares da palavra "generalização" são evidentes. Lembra-nos uma série de dispositivos destinados a conduzir as pessoas, gabinetes de ministros - toda uma quantidade de coisas que em crianças  pensámos serem as mais importantes, os modelos de tudo o que existe, e de que não poderíamos afastar-nos sem incorremos no risco da condenação eterna.

Virginia Woolf, "The Mark on the Wall" [1921], A Haunted House - The Complete Shorter Fiction, Vintage 2003. Tradução portuguesa: "A Marca na Parede", A Casa Assombrada, Tradução de Miguel Serras Pereira, Relógio d'Água, 1984