sábado, 26 de março de 2022

personagens provisórias ou conjuntos de traços


Há uma coisa que os miúdos fazem imediatamente antes de começar uma brincadeira - pode ser com bonecos da playmobil ou de um filme qualquer, ou mesmo de uma imagem de uma revista - eles transferem-se imediatamente para lá, começando por definir o seu papel: - eu sou este (pode ser um homem, uma flor, uma pedra). E se estiverem vários a brincar fazem-no em grupo - eu sou esta, eu sou este, eu sou aquele. Antes de mais nada há uma personagem a que se adere. Durante a brincadeira, experimenta-se ser assim e assado, vê-se o que dá e não dá para fazer, o que é que a personagem pode fazer, de que truques é capaz, que poderes tem. Depois há outra imagem, outro filme, outras figuras, e volta-se e entrar no papel que se escolhe ou que calha e volta-se a experimentar e a avaliar potências e assim vai-se vivendo uma sucessão de pequenos papéis e essa escolha não parece assim completamente arbitrária no que se refere à pessoa que escolhe, às vezes é mais outras vezes é menos casual e eventualmente vai definindo uma espécie de estilo. Mas o que é interessante na necessidade de um papel para que a brincadeira avance, para que haja a mais pequena acção, é que quando se escolhe ser este ou ser aquele, escolhe-se sobretudo um conjunto de traços expressivos que se vai experimentar, como se se estivesse a experimentar uma roupa por cima da pele. Experimentam-se maneiras de ser, expressões que estão já misturadas com sujeitos, temas e significados. E não há outra maneira de brincar. Escolhe-se uma figura (que também pode ser um cliché, mas não é só um cliché) que tem estas e aquelas qualidades que se vão experimentar e quando a escolha é imediata, sem escolher quase, faz-se com qualidades expressivas (é uma cor, uma tonalidade, um som, um material, etc., que captou a atenção). Assim, antes da menor acção e para que a brincadeira continue o seu movimento, há uma necessidade de aderência a esse conjunto expressivo de traços que constitui uma personagem sempre provisória...


(texto de 2017)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

andar à procura daquilo que se quer dizer, o querer dizer sendo nem mais nem menos, mas o mais próximo do objectivo, significa que a procura e o que se quer dizer se encontram num mesmo gesto. a caminhada como forma de contemplação é um pouco isto, em cada passo realizo o lugar onde quero chegar. a procura como forma de pensamento, então, não tem de ser uma forma imprecisa e bamba, muito pelo contrário, trata-se de uma procura tanto mais exacta quando mais perto se encontrar o objecto a contemplar. imaginemos os gestos de um gato quando procura o lugar onde se vai aninhar: ele anda um pouco às voltas de si mesmo, não por estar perdido, mas porque está a avaliar o encaixe mais exacto entre si e o lugar onde se vai deitar.

domingo, 4 de novembro de 2018

pequena colher de pau


Vive com outros talheres já há muitos anos numa gaveta da cozinha de uma cidade branca e é frequentemente usada. É um palmo de pau, escurecido do uso e do tempo. Mexe muitos ovos e outros alimentos cozinhados na frigideira. É tão pequena que quase não é usada em panelas ou em tachos. E guarda na sua matéria porosa e húmida tantas imagens. Os mergulhos naquela lagoa de águas límpidas onde jazia uma aldeia submersa e depois cozinhar o arroz de salsicha no pequeno tacho amolgado (por onde andará?), contigo a proteger do vento a chama do minúsculo campingaz azul (que banquetes saiam dali ou como a fome constrói palácios), o orvalho de maresia das praias rochosas, o amontoado de coisas, o suor, o calor quase insuportável da velha tenda. Também as nossas vozes. Todas estas imagens, na matéria tão viva como antes da pequena colher de pau, enquanto ela durar.

domingo, 23 de setembro de 2018

temos de falar do tempo

urgente: constatar (sentir) a lógica de composição (não inteligível) para chegar às coisas, chegar à visão.

(visão) feita de exercícios de composição. aproximações, deslocamentos, contacto. procura do sopro (ritmo).

(ritmo) sopro, ondulação, humidade, frio, calor. chuva. a ocasião como modo temporal. o tempo que faz e se faz sentir (falta-nos a palavra em português, weather, em inglês).

chove realmente. ficamos ensopados. tempo como corpo ensopado. podemos prever (ler os sinais), podemos esperar a chuva, mas não podemos saber absolutamente nem se a chuva vem nem quando e nem determinar as suas causas exactas.

se cai chuva é tudo chuva e nada é chuva. somos tão impermeáveis (são já tantas as invenções, depois da casa...) e no entanto nada escapa à influência subtil da chuva torrencial ou do chuvisco.

e então temos de falar do tempo, do tempo que nos toca, desse tocarmo-nos, eu e tu e nós.
que é como quem diz que temos de dizer, no tempo que ao passar tudo quer engolir, coisas que nada querem dizer senão o dizer que nada diz (só o gesto de dizer).

parece que vai chover, amanhã (não achas?) sim, sim, parece que vai chover  (cá estou. cá estamos) sussurraremos ou gritaremos ao telefone: alô, estás a ouvir-me? temos de falar do tempo, parece que vai chover.

emergência de palavras silenciosas, como malas cheias de um desejo de ocupar um lugar, de tocar um chão, a tua mão. palavras-mão.

temos de falar do tempo (como o vento venta ou como a chuva chove).

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

manhã

dia de semana, nove horas da manhã. desço a avenida de carro, já a conheço bem, é ladeada de umas árvores que a escurecem um pouco, talvez carvalhos. fico sempre maravilhada com as suas folhas em movimento, os raios de luz entre os ramos escuros e os desenhos das sombras na estrada de alcatrão. a avenida seria um pouco sombria, até, não fosse o movimento rotineiro e a força dos contrastes. se os sentidos ainda dormiam, o seu despertar é intenso e demora poucos minutos, primeiro uns ziguezagues ao descer a rua, que são muitos os carros encostados em segunda fila e um taxista a mostrar as suas habilidades passa quase de raspão. desço mais um pouco, fico parada no trânsito. do meu lado direito um imponente veículo rebocador amarelo, com um enorme gancho para agarrar. não consigo evitar, quero olhar demoradamente para os seus pormenores, adoro todo o tipo de guindastes, mas logo a minha atenção é puxada para outro lado, mesmo à minha frente: um sujeito vestido de branco abre a porta traseira branca de uma carrinha branca de transporte de carnes. lá estão elas, penduradas nos respectivos ganchos, assim na vertical, baloiçando com ligeireza. penso nessa estranha comunidade onde se encontram os restos do que outrora foram espécies de vida diferentes: porcos, patos, vacas, galinhas, cujas carcaças, reunidas em série, pertencem agora a uma nova colecção de um outro mundo no mesmo mundo. reparo nas riscas brancas de gordura e nas costelas de um animal que não sei reconhecer. lembram-me as minhas costelas. algo perturba bruscamente o fluxo de associações livres, uma náusea, a sensação do odor a bedum. troco sinais faciais com o motorista do autocarro à minha esquerda. está impecavelmente penteado e barbeado, sorri e faz-me sinal que avance. reparo no brilho gorduroso da pele do seu rosto pálido, misturando-o com a visão das carnes. ainda um pequeno desvio: passar numa rua com nome de arbusto onde há muitos anos morei e repetir o gesto já costumeiro de me deixar ficar por instantes, junto ao prédio, a observar a varanda do segundo direito, verificando, com espanto, que as persianas de palha desses tempos remotos ainda estão nas janelas da casa onde morei.

domingo, 27 de maio de 2018

A actividade muscular de um cidadão que segue calmamente o seu caminho durante um dia inteiro é muito maior do que a de um atleta que uma vez por dia sustenta um peso enorme; isto foi comprovado fisiologicamente e é provável, também, que as pequenas actividades quotidianas, na sua soma social e nessa sua capacidade de serem somadas, ponham muito mais energia no mundo do que as acções heróicas.


Musil, O homem sem qualidades

domingo, 29 de abril de 2018

Agosto

estar um pouco no mês de agosto, ou setembro...
nada é comparável ao agosto da nossa infância. as férias do verão, a praia e o mar, a luz, o corpo que eram uma coisa só, um acontecimento que se ia desenrolando em praia, corpo a rebolar na areia, depois enterrado na areia molhada, depois ao sol, as uvas misturadas com areia, calor extremo na pele, a queimar, antes do mergulho no mar, a família, os amigos, os encontros. é verdade que vivendo-se nem que seja por uma temporada de férias perto do mar, há uma metamorfose qualquer, uma troca elementar entre essas coisas todas, a pele dos corpos que fica mais salgada e escurece, as rochas, a brisa das noites longas que parecem não ter fim, os elementos minerais, aquáticos, terrestres, os cheiros todos misturados com o calor que a terra emana. mas não é como o agosto da nossa infância, de gestos sem finalidade à vista para além do seu estar sempre meio inebriado, demasiado lentos ou demasiado eufóricos, gargalhadas só porque apetece, toda essa mistura de sensações que bebemos na mão aberta de agosto. que será que marca tão intensamente o agosto da nossa infância, que não volta a repetir-se, pelo menos não por inteiro. mesmo se voltamos àquele esconderijo, àquela rocha naquela praia, àquele canto da casa perto da varanda, onde nos sentávamos a apanhar uma nesga de sol a comer nêsperas. a nossa experiência desses lugares será sempre a da infância, apesar de todas as outras vezes que voltámos aos mesmos lugares, a terceira e a quarta e tantas outras. será que só a primeira vez é singular, porque à segunda já não vivemos a experiência num estado virgem qualquer, como um mundo para ser vivido, uma realidade objectiva naquele espaço e naquele tempo? será que da segunda vez e da terceira e da quarta já não vivi objectivamente a realidade por tê-la já, em parte, em mim, dentro de mim e interiorizada? será que pouco a pouco deixamos de viver objectivamente esses mundos todos que há para viver porque já temos o nosso mundo em nós, o mundo todo em nós? o inferno interior do próprio mundo. talvez na infância o mundo fosse sempre estrangeiro e nunca próprio, sempre um saltar para fora de si, um mergulho para outro sítio, uma caminhada alhures. e talvez a infância não conhecesse o tempo, ou pelo menos o tempo interior que tudo envolve num horizonte circunscrito a um antes e a um depois, em que o agora desapareceu. talvez a dada altura, algures no início da nossa juventude, uma certa maneira de viver o tempo venha a nós (ou nós a ela) e transforme por completo a nossa experiência e então marca-nos sobretudo o princípio e o fim do verão, a intensidade das banalidades desconhecidas mas excepcionais do agora é substituída pelos igualmente intensos momentos de expectativa e de angústia. momentos de puro tempo subjectivo. passamos de repente a viver intensamente o antes do agosto começar e o antes do agosto acabar. a expectativa e a terrível angústia. vivemos a morte das férias, a nossa morte. o fim do verão, como que numa lenta agonia. na infância as férias chegavam de repente, terminavam mais ou menos abruptamente, estávamos fora do tempo ou num tempo que só tinha o meio e nunca o antes e o depois e sempre ocupados com outros mundos. agosto era inteiro e nós inteiros no mês de agosto, "escarranchados no lombo nutrido de agosto"...