domingo, 20 de março de 2016

The Mark on the Wall * A Marca na Parede


But after life. The slow pulling down of thick green stalks so that the cup of the flower, as it turns over, deluges one with purple and red light. Why, after all, should one not be born there as one is born here, helpless, speechless, unable to focus one’s eyesight, groping at the roots of the grass, at the toes of the Giants? As for saying which are trees, and which are men and women, or whether there are such things, that one won’t be in a condition to do for fifty years or so. There will be nothing but spaces of light and dark, intersected by thick stalks, and rather higher up perhaps, rose-shaped blots of an indistinct colour—dim pinks and blues—which will, as time goes on, become more definite, become—I don’t know what....
 (...)
All the time I’m dressing up the figure of myself in my own mind, lovingly, stealthily, not openly adoring it, for if I did that, I should catch myself out, and stretch my hand at once for a book in self-protection. Indeed, it is curious how instinctively one protects the image of oneself from idolatry or any other handling that could make it ridiculous, or too unlike the original to be believed in any longer. Or is it not so very curious after all? It is a matter of great importance. Suppose the looking glass smashes, the image disappears, and the romantic figure with the green of forest depths all about it is there no longer, but only that shell of a person which is seen by other people—what an airless, shallow, bald, prominent world it becomes! A world not to be lived in. As we face each other in omnibuses and underground railways we are looking into the mirror that accounts for the vagueness, the gleam of glassiness, in our eyes. And the novelists in future will realize more and more the importance of these reflections, for of course there is not one reflection but an almost infinite number; those are the depths they will explore, those the phantoms they will pursue, leaving the description of reality more and more out of their stories, taking a knowledge of it for granted, as the Greeks did and Shakespeare perhaps—but these generalizations are very worthless. The military sound of the word is enough. It recalls leading articles, cabinet ministers—a whole class of things indeed which as a child one thought the thing itself, the standard thing, the real thing, from which one could not depart save at the risk of nameless damnation. 


Mas a vida. A lenta derrocada dos grandes caules verdes de tal modo que a flor acaba por se virar, ao cair, inundando-nos com uma luz de púrpura e vermelho. Porque é que, bem vistas as coisas, não nascemos ali, em vez de aqui, desamparados, incapazes de ajustarmos como deve ser a luz do olhar, rastejando na erva entre as raízes, entre os calcanhares dos gigantes? Porque dizer o que são as árvores e o que são e o que são mulheres, ou sequer o que é haver coisas como árvores, homens e mulheres, não será algo que estejamos em condições de fazer nos próximos cinquenta anos. Não há nada por vezes senão espaços de luz e de escuridão, intersectados por grandes hastes densas e talvez bastante mais acima manchas em forma de rosa – rosa-pálido ou azul-pálido – de cor indecisa, e tudo isso, à medida que o tempo passa, se vai tornando mais definido e se transforma – em não se pode saber o quê.
(...)
A todo o momento vou construindo uma imagem de mim própria, apaixonadamente furtiva, que não posso adorar directamente, porque se o fizesse cairia imediatamente em mim e deitaria  a mão a um livro num gesto de autodefesa. É curioso, com efeito, como uma pessoa protege a sua própria imagem de toda a idolatria ou de qualquer outro sentimento que a possa tornar ridícula ou demasiado diferente do original para ser verosímil. Ou talvez não seja assim tão curioso afinal de contas? É uma questão da mais alta importância. Imagine-se que o espelho se partia, a imagem desaparece e a figura romântica rodeada pela floresta profunda e verde desfaz-se; fica apenas essa concha exterior da pessoa que os outros habitualmente vêem - que insípido, oco, inútil e pesado se tornaria o mundo! Um mundo onde não seria possível viver. Quando no autocarro ou sobre os carris do metropolitano encaramos os outros, estamos ao mesmo tempo a olhar para o espelho; é por isso que se torna possível vermos então como os nossos olhos são vagos, vítreos. E os romancistas do futuro darão uma importância crescente a estes reflexos, porque não há apenas um reflexo, mas um número quase infinito deste género de refracções : aí estão as profundezas que os romancistas do futuro terão que explorar; esses os fantasmas que terão de perseguir, deixando cada vez mais de lado as descrições da realidade, pressupondo-a já suficientemente conhecida pelo leitor, como fizeram também os Gregos e Shakespeare, talvez - mas estas generalizações começam a parecer-me inúteis. As ressonâncias militares da palavra "generalização" são evidentes. Lembra-nos uma série de dispositivos destinados a conduzir as pessoas, gabinetes de ministros - toda uma quantidade de coisas que em crianças  pensámos serem as mais importantes, os modelos de tudo o que existe, e de que não poderíamos afastar-nos sem incorremos no risco da condenação eterna.

Virginia Woolf, "The Mark on the Wall" [1921], A Haunted House - The Complete Shorter Fiction, Vintage 2003. Tradução portuguesa: "A Marca na Parede", A Casa Assombrada, Tradução de Miguel Serras Pereira, Relógio d'Água, 1984

sábado, 16 de janeiro de 2016

a fenda, a estrada. Kiarostami.






 




1&2 Onde fica a casa do meu amigo? (Khane-ye doust kodjast) ABBAS KIAROSTAMI 1987
3      O vento levar-nos-à ( Bad ma ra Khahad bord)  ABBAS KIAROSTAMI 1999





a c o n t e c i m e n t o s


Um acontecimento tem sempre uma parte que ainda não aconteceu e uma parte que aconteceu plenamente. Mas quando se esgota o acontecimento já não há acontecimento. Parece ser um mas não é, é sempre outro e ainda outro e outro. É sempre uma espécie de manada deles, sem número definido. Como se define o número de uma manada? Define-se pela sua expressão vital. A vida define. Acontecimento é uma palavrinha que tem um sentido para toda a gente, mas não é o mesmo sentido. A maneira como esta palavra me aparece, o som, a expressão, engloba tudo isso que sempre escapou e sempre terá de escapar às designações e classificações de signos da Semiótica ou da Linguística. O acontecimento não existe sem um excesso em relação a ele, mas é algo de extremamente singular, quer dizer, não se confunde com o resto, sobressai sempre, ainda que muitas vezes passe despercebido. A c o n t e c e r, todos sabemos, é a coisa mais simples, mais subtil, mais natural, mais fugaz, mais deliciosa, do mundo, mas é também a mais difícil, mais óbvia, mais estranha, mais lenta, mais dolorosa do mundo. Em todo o caso, acontecer só acontece quando necessário. Sabemos quando acontece, mas não sabemos o quê. Sentimos que é um não sei quê, um quase nada ou um quase tudo. Uma espécie de charme que nos envolve um pouco ou totalmente, como um odor, um sabor, uma cor, uma paixão. Sabemos nada, quase nada sobre isto. Não há nada a saber. A c o n t e c e r acontece fora, não longe, mas absolutamente fora e absolutamente dentro, tão dentro, nas entranhas, que é absolutamente fora de tão absolutamente dentro.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

a intuição do padrão



Hoje de manhã fui surpreendido por uma estranha visão: vi ao longe árvores altas e afiladas todas cobertas da mais bela cor violeta. Ao aproximar-me verifiquei que se tratava da árvore que nas nossas estufas é conhecida por "árvore da Judeia", e a que os botânicos chamam cercis siliquastrum. As flores violeta em forma de mariposa saem directamente dos ramos. Foram podados no último inverno, e agora sai-lhes da casca aos milhares esta flor harmoniosa e colorida. As maravilhas brotam do chão como formigas, o croco e o ranúnculo vêem-se menos, mas são mais delicados e decorativos. 
  O que estas terras do sul me irão  dar de alegrias e conhecimentos, de que irei extrair novas consequências! Com a natureza passa-se o mesmo de que com as coisas da arte: escreveu-se tanto sobre elas, e no entanto cada um que as vê fá-las entrar em novas combinações.
(Goethe, Viagem a Itália)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015


Moths that fly by day are not properly to be called moths; they do not excite that pleasant sense of dark autumn nights and ivy-blossom which the commonest yellow-underwing asleep in the shadow of the curtain never fails to rouse in us. They are hybrid creatures, neither gay like butterflies nor sombre like their own species. 
Virginia Woolf

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O mundo subterrâneo de Bohumil Hrabal


Durante trinta e cinco anos prensei papel velho, e se eu tivesse que optar de novo não quereria fazer outra coisa senão aquilo que fiz nestes trinta e cinco anos. No entanto, uma vez em cada três meses o meu trabalho tornava-se negativo: de repente achava a cave feia, as advertências, as lamentações e os insultos do meu chefe ressoavam nos meus ouvidos e na minha cabeça como num altifalante, a minha cave começava a feder o inferno, o papel velho amontoado desde o fundo da cave até ao tecto do pátio, aquele papel molhado e bolorento, começava a apodrecer de tal modo que até o estrume era bem cheiroso comparado com o papel podre... um lodaçal fermentava e putrefazia-se como pirilampos dum tronco apodrecido na lama de uma fossa imunda. Eu tinha que sair, tinha que fugir da prensa hidráulica, mas já não ia apanhar ar fresco, já não suportava o ar limpo, lá sufocava, tossia e cuspia como se tivesse engolido o fumo de um havano. E enquanto o meu chefe gritava, torcia as mãos e me ameaçava, eu saía da minha cave e caminhava, ao Deus dará, para outras caves e outros subterrâneos. Do que eu gostava mais era visitar os rapazes do aquecimento central, gente com formação universitária, presa ao trabalho como os cães às suas casotas, que aproveitavam as pausas para escrever a história da sua época, uma espécie de estudo sociológico. Foi aqui, nas caves, que aprendi que o quarto estado decrescia: os operários de base tiravam cursos enquanto os quadros universitários trabalhavam como operários. Mas ainda gostava mais de me encontrar com os limpadores de canos de esgotos: aí trabalhavam dois membros da Academia que ao mesmo tempo escreviam um livro sobre as cloacas e os canais que atravessam praga inteira e se cruzam debaixo dela; foi aqui que soube que os excrementos que correm para as estações de tratamento em Podbaba são no domingo completamente diferentes dos da segunda-feira, que cada dia útil tem a sua característica, e que assim se pode construir um gráfico do débito de excrementos; conforme o fluxo de preservativos pode verificar-se em que bairros de Praga se fornica mais e onde menos; mas o que mais me emocionou foi um relatório académico sobre as guerras totais que as ratazanas e os ratos travavam entre si, tal qual como os homens; uma dessas guerras tinha já acabado com a vitória total das ratazanas, mas estas dividiram-se imediatamente em dois grupos, em dois clãs, em duas sociedades organizadas, e justamente agora, em todos os esgotos , em todas as cloacas debaixo de Praga, trava-se uma luta de vida ou de morte, uma grande guerra entre as ratazanas, cujo vencedor reinará sobre todas as imundices e excrementos que correm pelos esgotos até Podbaba; soube através destes limpadores de esgotos com formação universitária que mal esta guerra acabe a força vencedora dividir-se-á dialecticamente em outros dois novos campos, assim como se fraccionam os gases e os metais e tudo quanto é vivo no mundo, para que, através da luta, seja retomado o movimento vital; depois, o desejo de equilibrar os contrários faz atingir progressivamente a harmonia, de modo que o mundo, no seu todo, nunca coxeia.